O tempo não espera. É feito de gotas.

domingo, dezembro 05, 2010

"A casa materna - Vinicius de Moraes.

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão do filho, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.
É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um eterno repouso em suas poltronas. O assoalho encerado guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram outrora. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas.
Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo: o verso, a poesia.
Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória."

Meu coração é livre, mesmo amando tanto.
Tenho um ritmo que me complica.
Uma vontade que não passa.
Uma palavra que nunca dorme.
Tenho o desassossego dentro de mim.
E um par de asas que nunca deixo.
Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo.
E, sem saber, busco respostas que não encontro aqui.
Mas não tem nada, não.
Bonito mesmo é essa coisa da vida:
um dia, quando menos se espera, a gente se supera.
E chega mais perto de ser quem, na verdade, a gente é!