O tempo não espera. É feito de gotas.

sábado, junho 25, 2005

" Gostaria de lhe escrever uma carta verdadeira,
atravessando os escuros estratos de lava e argila que a vida foi
sedimentando sobre tudo.
Lhe diria que continuo sendo eu e que conservo sonhos.
A magnólia floresce. E também as crianças crescem.
Lhe diria: o tempo nao espera. É feito de gotas.
Basta uma gota a mais para que o líquido se derrame no chão, se expanda e se perca.
Lhe diria que ainda amo,
embora os sentidos estejam cansados.
E que preparei as palavras para a minha lápide:
poucas, porque entre a data do meu nascimento e a que será da minha morte todos os dias são meus.

E depois lhe direi que te espero
embora não se espere quem não pode voltar."

(Trecho da peça dinamarquesa SALT - Odin Teatret)

quinta-feira, junho 02, 2005

Sobras

E depois de tudo, restou essa imensa gratidão pela vida e pelos afetos,essa alegria de viver e querer sempre mais, esse olhar manso e sereno. Depois de tudo, me sobrou o pensamento de querer ir além. Sobra também essa solidão intensa, de quem se perdeu de si. Ou melhor: de quem ainda duvída de ter se achado. Sobrou essa vontade de chorar, sem saber o porquê. Me sobrou o medo do escuro. O medo das vozes do inseguro da noite. Me restou o amor, a vontade de dormir abraçado, o aconchego de você...
Se eu tirar tudo, tudo, tudo...
Todo o cotidiano...
Me sobra essa vontade de sair correndo em busca do que é meu.
Da minha fé.

Erika Chaul