O tempo não espera. É feito de gotas.

sábado, agosto 14, 2004

Nem Luís Pereira, nem Beckham

Pronto. O rapaz disse tudo.

Nem Luís Pereira, nem Beckham

Eu já ouvi Cólera. E Os Replicantes, Garotos Podres, Olho Seco. Ouvia por diversão - são bandas divertidas, com músicas divertidas, cheias de energia, bem dançantes. Mas ouvia também como estratégia de diferenciação. Quando você tem 16 anos, não quer nem ser diferente a ponto de não ser aceito pelo grupo nem tão igual a todo mundo a ponto de desaparecer na multidão de uma festa. Sobreviver na adolescência é uma equação complicada.
Na ingenuidade daqueles verdes anos, joguei um verniz punk sobre o meu comportamento docemente provinciano de garoto do interior. Nunca usei coleira pontuda nem cheguei a arrebentar meu cabelo, mas tinha uma camiseta bacana do Dead Kennedys e outra do Circle Jerks. Em nome de ter uma atitude, peguei emprestada uma que não era minha. E ao invés de só poguear e ser feliz, de só rir e fazer rir, acabei adotando também um par de frases fortes, de gestos rígidos, de auto-imposições. Experimentei - felizmente não por muito tempo - a condição de ser um cara rude, afiado, radical. Fiquei chato. Fiquei raso. Afastei gente. Me tornei inconveniente. E, suprema tragédia, não peguei mulher alguma.
Alguns anos mais tarde, na faculdade, escrevi um texto chamado "O Manifesto dos Delicados". (Pausa para a sua merecida gargalhada.) Trata-se de uma dessas bobagens pretensiosas que só comete quem está ardendo na fogueira das vaidades de um curso de comunicação em que todos são ou videomakers visionários ou inspiradíssimos poetas concretistas ou semiólogos ultra-eruditos. Convenci alguns bons amigos a assinar o Manifesto junto comigo. Uma bela sacanagem. E o pendurei na parede do bar. (Uma faculdade de comunicação acontece muito mais no bar do que na sala de aula.) A minha intenção com aquilo era basicamente aparecer mais que os outros, ser aceito, ser amado. E, sobretudo, ganhar a atenção e a admiração das mulheres.
No texto eu clamava por mais delicadeza dos homens em suas relações com as mulheres e denunciava a insinceridade de vários "falsos delicados" que posavam de fãs de Caetano e de Rimbaud mas que eram no fundo uns trogloditas. Entre outras patetices e cagüetagens de igual calibre, o que eu queria mesmo era reclamar publicamente que as mulheres não ficavam comigo, que era um sujeito bacana, gentil, carinhoso, limpinho, super a fim de me apaixonar - e fã genuíno de Caetano e de Rimbaud - para ficar com os caras mais cafajestes da escola. Claro que de novo soei chato, inconveniente. Pretensioso, bobo. E claro que, de novo, não peguei mulher alguma.
Eis as duras penas que me ensinaram que mulher não está interessada nem em um australopiteco que fala em monossílabos guturais, bate a cabeça na parede e nunca troca a cueca, e muito menos em rapazes de fino trato, assépticos, cheios de maneirismos, que não transmitem aquela certeza de que vão às ganhas, com sangue nos olhos, munidos de vontade pétrea e duradoura, para os suados jogos olímpicos de alcova.
Mulher quer um cara que saiba dar uns pegas bacanas, prensar contra a parede, assumir o comando. Mas que depois saiba também dormir juntinho, fazendo cafuné, dizendo coisas bonitas no ouvidinho. Mulher não gosta de homem que faz pose. Seja de brucutu, seja de leitor do Gabeira. (Pose é uma arma feminina, amigo. Não nos pertence.) A sua melhor aposta com a grande maioria delas é ser você mesmo. Seja sincero, divertido, despretensioso. Relaxe e vá à luta. Ao invés de perder tempo com essas definições e gradações um bocado tolas, que vão do macho fedorento ao metrossexual que tira a sobrancelha, preocupe-se em fazê-la rir. Ria junto. Deixe-a perceber a fome que ela lhe causa. Faça falta em sua vida. E, se puder, coloque-a na posição de presa sem se colocar na posição de predador. Xeque-mate.

Adriano Silva é diretor de redação da revista Superinteressante e autor dos livros Homem sem nome; E agora, o que é que eu faço?; Tudo o que eu aprendí sobre o mundo dos negócios.